A maior greve da história: o protesto dos agricultores que está a paralisar a Índia

20 Dezembro 15:57

Cláudia Monarca Almeida

Jornalista

Mais Vistas

Sumit Sanyal via Getty Images
Sumit Sanyal via Getty Images
Indranil Aditya via Getty Images
AFP
AFP
AFP
AFP

Há três semanas que dezenas de milhares de agricultores estão acampados em cinco das principais vias de acesso à capital indiana. A situação arrasta-se desde o fim de novembro, quando foi convocada aquela que é já considerada a maior greve geral de sempre, à qual aderiram 250 milhões de pessoas

Os manifestantes são muitos, estima-se que 250 milhões de pessoas, e exigem que o Governo indiano reverta as novas leis para a agricultura. A nova legislação visa liberalizar o setor e atrair novos investimentos, defende o executivo. No entanto, os agricultores acreditam que as novas regras vão contribuir para reduzir os preços de venda das colheitas e ameaçar os seus rendimentos. Queixam-se de não terem sido ouvidos no processo e acusam a medida de apenas beneficiar as grandes empresas.

“Não confiamos nas grandes empresas. Os mercados livres funcionam em países com menos corrupção e mais regulamentação.” afirmou um dos manifestantes à BBC. “Vamos perder as nossas terras e os nossos rendimentos se deixarem as grandes empresas decidir os preços e comprarem as colheitas.”

Até agora, os agricultores vendiam a maioria das suas colheitas a organismos controlados pelo Governo, que garantem preços mínimos. A reforma permite-lhes vender fora deste “sistema Mandi” ao preço de mercado e diretamente às empresas privadas.

Apesar das promessas de que este sistema vai continuar a existir, os manifestantes temem que este seja o início do fim desta proteção. “Primeiro, os agricultores vão ser atraídos por estes agentes privados, que vão oferecer melhores preços pelos produtos. Os ‘mandis’ governamentais vão acabar por fechar e em poucos anos, estes agentes vão começar a explorar os agricultores. Isto é o que tememos”, explicou outro manifestante à BBC.

As reformas agrícolas foram anunciadas em setembro pelo Governo de Narendra Modi e têm sido contestadas nos últimos meses, principalmente nos estados de Punjab e Haryana – os maiores produtores. Depois de várias rondas negociais falhadas, os protestos escalaram no fim do mês passado.

A 26 de novembro foi convocada uma greve nacional à qual aderiram cerca de 250 milhões de trabalhadores e que paralisou os transportes, mercados e lojas. A manifestação incluiu uma marcha até à capital, onde foi recebida por barricadas policiais. Há relatos de confrontos entre os manifestantes e a polícia, que usou gás lacrimogéneo e canhões de água para tentar dispersar a multidão. Nas redes sociais, uma fotografia do fotojornalista Ravi Choudhary tornou-se viral, alimentando as críticas à forma como o governo de Modi tem gerido o conflito. A imagem mostra um paramilitar a carregar sobre um idoso com um bastão.

Desde então, dezenas de milhares de agricultores mantêm-se acampados na periferia da cidade, bloqueando pelo menos cinco das principais vias de acesso à cidade. Na segunda-feira, depois de uma nova tentativa de negociação falhada, alguns líderes dos agricultores entraram em greve de fome. Os manifestantes garantem que não vão abandonar o local até que as novas leis sejam revogadas.

Mais de metade dos indianos trabalham no setor agrícola, de acordo com o “Levantamento Económico 2017-18″, um documento lançado pelo parlamento indiano no início de 2018. De acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), 82% são pequenos produtores.

“O Governo tem de compreender que está a ir contra o país. As leis da agricultura são anti-pessoas e é por isso que todos nos apoiam”, disse um dos agricultores à Aljazeera.

Source: https://expresso.pt/internacional/2020-12-20-A-maior-greve-da-historia-o-protesto-dos-agricultores-que-esta-a-paralisar-a-India

  • 863