O longo protesto dos agricultores indianos e o efeito Rihanna

Há seis meses que o dia-a-dia de milhares de agricultores na Índia deixou de ser nos campos e passou a ser nas ruas. Desde agosto que protestam contra três leis, que, segundo eles, os levará a uma luta desigual contra as grandes empresas. Se, até agora, as manifestações tinham sido pacíficas, nos últimos dias a violência escalou em ambos os lados. A cantora Rihanna comentou o caso no Twitter, esta terça-feira, e altos responsáveis da Índia não gostaram da interferência.

No final do verão de 2019, o Parlamento da Índia apresentou e aprovou três projetos-lei que terão um profundo impacto no setor agrícola do país: os agricultores deixam de contar com a mediação do governo e poderão fazer contratos diretamente com as empresas. Do lado de Narendra Modi, primeiro-ministro indiano, as novas leis são necessárias para aumentar o investimento privado no setor e assim potenciar o crescimento económico. Do lado dos agricultores, esta é apenas mais uma medida que agudizará a pobreza de milhares de indianos, já que a ajuda do Estado será inexistente.


Desde agosto, altura em que as leis foram apresentadas – depois aprovadas em setembro -, milhares de pessoas têm protestado em várias cidades da Índia. Contudo, a tensão tem aumentado junto a Nova Deli, onde muitos têm permanecido acampados na periferia. Na passada terça-feira, 26 de janeiro, os agricultores avançaram com tratores sobre a capital em dia de feriado nacional, o que resultou em confrontos com a polícia: um manifestante morreu, mais de 200 foram detidos (entre eles, jornalistas) e mais 300 polícias ficaram feridos, de acordo com a BBC. Muitos agricultores sofreram também ferimentos, adiantou o “The New York Times” (NYT). Além de ultrapassarem as barricadas da polícia com as máquinas, os manifestantes estavam munidos de espadas, enquanto as autoridades se protegiam com espingardas e respondiam com gás lacrimogéneo.


Até hoje, as inúmeras reuniões entre sindicatos e Governo não resultaram em nada – foram pelo menos 11 os encontros. Num país onde mais de 60% dos indianos ainda vive da agricultura – o setor representa apenas 15% da economia da Índia -, as novas medidas parecem ser um novo fator de desigualdade social. Os agricultores concordam que deve haver uma reforma do setor, mas não abdicam da revogação total das três leis. Embora a nova legislação tenha sido suspensa pelo Supremo Tribunal da Índia, os sindicatos continuam a não concordar com a solução. “O governo tem os cérebros mais inteligentes a trabalhar nisto. O facto de não terem conseguido apresentar uma proposta que atendesse às nossas exigências significa que o nosso caso é forte”, disse Kiran Vissa, um dos líderes do protesto à revista “The Wire”.

A 22 de janeiro, o governo chefiado por Narendra Modi terá proposto aos sindicatos a suspensão até 18 meses das leis agrícolas, mas mais uma vez, a sugestão foi recusada pelos agricultores. “Estes líderes não querem encontrar uma solução – eles estão continuamente a querer criar um movimento contra o governo”, disse Gopal Krishna Agarwal, porta-voz do partido Bharatiya Janata [do Governo], ao jornal norte-americano “NYT”.


O braço de ferro já levou inclusive a que o governo tenha acusado os sindicatos de serem alimentados por uma campanha de desinformação da oposição. Várias contas na rede social Twitter dos líderes dos protestos foram bloqueadas a pedido do Governo, por representarem uma “séria ameaça à ordem pública”. Após 26 de janeiro, os serviços de Internet foram suspensos em redor de Deli, onde milhares de agricultores continuam acampados. A suspensão deveria demorar algumas horas, mas está a prolongar-se por vários dias.

A pobreza crescente no setor, catapultada pela pandemia da covid-19, tem levado a altos índices de suicídio entre os agricultores. Em 2019, dados de uma agência do governo indiano para os crimes praticados no país revelam que 10 281 agricultores e trabalhadores tiraram a própria vida. Estima-se que o número seja muito mais elevado que as estatísticas oficiais.

Desde 26 de novembro do ano passado, pelo menos 25 manifestantes terão morrido durante os protestos, segundo uma notícia de dezembro da agência “Al Jazeera” : alguns por causas naturais como ataques cardíacos ou constipações (a maioria são idosos) e outros sofreram acidentes rodoviários. A hipótese de suicídio tem estado também em cima da mesa. O número de mortes será também superior a esta altura.


Nas últimas horas, a cantora Rihanna tem estado debaixo de fogo, por parte do governo indiano, depois de ter partilhado no Twitter uma notícia da CNN sobre a suspensão da Internet na Índia. “Porque é que não estamos a falar disto?”, escreveu a artista natural de Barbados. O comentário foi amplamente partilhado, tendo outras figuras públicas aderido à hashtag #FarmersProtest (protesto dos agricultores, em português) como a ativista Greta Thunberg e a advogada e sobrinha da vice-presidente dos EUA, Meena Harris.

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O governo indiano não gostou da opinião de Rihanna e contrapôs numa nota do Ministério dos Negócios Estrangeiros: “A tentação de hashtags e comentários sensacionalistas nas redes sociais, especialmente quando ocorridos por celebridades e outros, não é precisa nem responsável”. O impulso da artista foi de tal ordem no Ocidente que alguns ativistas e artistas indianos agradeceram à cantora nas redes sociais.

Por agora, a luta dos agricultores permanece sem um fim à vista. Com ou sem efeito de Rihanna, o Mundo despertou para a causa de milhares na Índia. Para eles, o protesto vai durar o que for preciso.

Source: O longo protesto dos agricultores indianos e o efeito Rihanna (jn.pt)

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